SOPHOS

CRENÇAS E RELIGIOSIDADE NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 1ª parte


ABSTRACT E “STATUS QUAESTIONS”

 

Algumas décadas atrás, traçando uma perspectiva da situação religiosa da sociedade contemporânea, pensar-se-ia que as práticas religiosas seriam histórias passadas, pois as correntes filosóficas, antropológicas e as ciências modernas varreriam o fenômeno religioso do universo humano.Notamos, no entanto, que houve um grande reflorescimento da mística e dos movimentos religiosos, o qual invadiu severamente todos os campos da vida humana, nas escolas, nos estádios, nas artes, nos espetáculos, tomando os meios de comunicação social, como seu meio de veiculação.

Neste estudo, realizado em mutirão por um grupo de estudiosos que se reúne para aprofundar os fenômenos hodiernos de nossa civilização, apreciamos o desempenho das comunidades religiosas em suas relações com as ciências humanas e como meio de organização social, política e econômica. 

Relacionando as manifestações da fé com as ciências, com a psicologia, com as normas e com a comunicação mass-media, o artigo descreve as discussões,  estudos e conclusões do Grupo de Reflexão Sophos,  procurando discernir a nobreza e a pobreza das crenças e da religiosidade em nossos tempos, nas várias camadas sociais e culturais de nossa sociedade. 

SLO

Festa São Luís Orione – Procissão Capela São Luís Orione  

A religião sempre esteve no currículo da sociedade humana. Desde os primórdios, o ser humano pratica a religião, com maior ou menor intensidade. Cícero dizia, de fato, que se pode encontrar cidades sem muralhas, sem exércitos e sem palácios; nunca porém se encontrou povos sem templos. Vivemos alguns períodos de grandes confrontos entre a religião e a ciência, sobretudo no advento das ciências humanas, mas também no desenvolvimento das ciências biomédicas. Alguns pensadores modernos propalaram igualmente o declínio da religião diante do racionalismo filosófico. Eram muito comuns as posturas que colocavam a religião como forma primária e ingênua do comportamento humano.  No período entre guerras do século XX, havia grande desapontamento com a religiosidade, pelo que se perde a referência com a figura divina. Nas décadas posteriores à II Guerra Mundial, tinha-se a impressão que os jovens e as mentes mais ilustradas sepultariam as práticas religiosas, sobretudo aquelas tradicionais.

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Liturgia – Festa Italiana de São Luís Orione

Nas últimas décadas, no entanto, as religiões voltaram intensamente às estruturas da sociedade, tomando espaço nos meios de comunicação, no cotidiano dos povos, na ordem econômica e nos confrontos políticos.

Não ficou invisível que candidatos políticos que confrontaram a religião perderam muitos eleitores e até mesmo renegaram a si mesmos. Eram resquícios daqueles tempos acadêmicos, onde se renegava a religião (e era chique!). Mais evidente ainda a força que grupos religiosos se envolveram nos poderes políticos e os manipularam para interesses não públicos. Inegável ainda que o volume financeiro não pode ser ignorado, pois os templos envolvem grandes somas de dinheiro.

Este fenômeno não poderia ficar despercebido. Os estudiosos buscaram entender esta nova realidade. Descortinou-se aos nossos olhos movimentos religiosos que seriam considerados medievais, retrógrados e fetichistas. 

Em tempos de secularização, de avanços científicos e de comunicação virtual, revivemos espiritualidades e espiritualismos tidos como primitivos.  

Esta contraposição de ideias da sociedade contemporânea exige muita reflexão e algum pronunciamento.   Por ser assim, o Grupo Sophos de reflexão afrontou esta questão, nas várias áreas, como por exemplo, a sociologia, teologia, filosofia, psicologia, pedagogia, bem como o direito. Estas reflexões devem nos aproximar da realidade dos fatos: a prática religiosa nos dias atuais. Uma evolução da humanidade ou um regresso às suas formas mais primitivas de compreender o universo? 

Tendo em vista a pluralidade dos componentes do grupo de estudo, as posições expressas provem de falas de diferentes lugares, portanto assume-se esse vai e vem entre o universal e o particular, como característica da multiplicidade de olhares de quem exercita a tolerância sobre um tema amplo e complexo. 

 

EXPRESSÃO DO RELIGIOSO NA PÓS-MODERNIDADE

A religião é o supremo escudo contra o caos, nos ensina Berger (1971). Ainda mais, o caos nunca é totalmente abolido, está sempre à espreita e se instala, sobretudo, nos períodos de grandes transformações históricas que atravessam as sociedades. E como as religiões acompanham a história, elas também se transformam para recompor suas teodiceias, enfrentar os deslocamentos no mercado de bens sagrados e fornecer plausibilidade às experiências dos homens.

Pode-se afirmar que a pós-modernidade expressa essa experiência caótica coletivamente. Tratar da pós-modernidade envolve considerar o caráter letal, para as instituições, da vitória da modernidade ocidental. Esse processo implica em desintegração das certezas criadas na sociedade industrial e a busca de novas certezas, onde o papel do indivíduo ganha projeção e se superpõe ao coletivo, no esforço de recuperar algum nível de consenso. Beck (1997, p. 26) afirma que a […] “individualização significa que a biografia padronizada torna-se uma biografia escolhida, uma biografia do tipo “faça-você-mesmo”. As experiências biográficas que antes recebiam acolhida no grupo, comunidade, família, ou classe agora são interpretadas pelo indivíduo solitário e autossuficiente. “Estas são as dores do parto de uma sociedade de ação nova, uma sociedade de autocriação, que deve “inventar” tudo, mas não sabe como, com quem fazê-lo e com quem absolutamente não fazê-lo.”(BECK, 1997, p. 34). 

As religiões tradicionais respondem a este processo procurando reinventar-se no âmbito dos seus próprios quadros institucionais, mas esta circunstância oferece oportunidade, também, para experimentos religiosos inusitados, que procuram ocupar os espaços abertos e oferecem novas interpretações.

O século XX foi marcado por bruscas mudanças sociais que envolveram o deslocamento de populações em todas as direções do globo. A migração de povos e de pessoas, o desenraizamento e o enraizamento de culturas e de religiões produziram o encontro de diferentes tradições e fecundaram modos sincréticos de conferir sentido às estruturas sociais da modernidade.

Em artigo de 2006, o antropólogo Geertz trata da modernização das religiões neste contexto de desterritorialização, oferecendo argumentos que dão conta da experiência pós-moderna. O seu recorte é inusitado, pois religião e modernidade sempre se apresentaram, aos olhos dos teóricos, como antinômicos.

Lembro que a modernidade apostou no desaparecimento das religiões e no nascimento de uma sociedade secularizada, com infinitas nuances, de acordo com a utopia de cada um. Pois bem, a sociedade se secularizou, mas também abriu espaço para a diversificação e o descompromisso para com as instituições; neste processo, se abriram novas perspectivas para pertenças sociais e culturais. As religiões não ficaram isentas a essas transformações e, em vez da indiferença religiosa, hoje ouvimos um forte rumor de anjos.

Voltemos a Geertz que nos convida: 

[…] a estudar a modernização no seio das religiões, a não mais avaliar o avanço ou o recuo “da religião” em geral, mas, sim, apreender os processos de transformação e reformulação de cada religião específica no momento em que ela se vê penetrada, de bom ou de mau grado, pelas perplexidades e desordens da vida moderna. (GEERTZ, 2006, página10). 

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Coroação de Nossa Senhora – Capela Santo Antônio 

Os novos modos de adesão religiosa comportam desde experiências internalizadas, fontes de orientação de vida sinceras, a comportamentos nômades, onde indivíduos praticam experimentalismo em busca de um aprendizado incessante. Entram neste cadinho as tradições de um oriente mitificado bem como crenças nativas, sobreviventes ou recriadas e reinterpretações do conhecimento científico.  Neste processo, o sentido da experiência religiosa anterior é ressignificado à luz de novas crenças, como ocorre com o fenômeno da conversão. Em períodos de identidades líquidas, o comprometimento e o engajamento oferecem oportunidades para o pertencimento social. Enfim, essa grande diversidade de crenças é acompanhada de modos próprios de adesão às religiões que expressam suas diferentes estratégias para enfrentarem os desafios da modernidade. 


veja a segunda parte deste artigo…